Domingo , 24 Junho 2018
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Procissão das Cinzas: Origem, configuração e reformas no século XVII (II)

Procissão das Cinzas: Origem, configuração e reformas no século XVII (II)

A primeira referência documental a esta solenidade surge, como agora se comprova, três anos após a fundação da Ordem:
“No primro de Novbro do Anno de 1663 fez [nesta villa de Ovar] o Ministro com mais officiaes da mesa ordenara q dos dous Annos atrasados em q se fez eleição se pagace hum com o mais […] q se devia dos outros annos (…) o irmão q não fizer o q se ha della neste cap[itu]lo athe a procição da quaresma pagará os ditos dous annos (…)

Em 1672, no livro de atas, descreve-se a entrega de alguns bens referentes à procissão. Contrariamente ao que afirma João Fernandes Arada e Costa, não se trata de uma autorização de compra mas de um processo de entrega, como
comprova a transcrição do documento:
“Aos 1 do mes de novembro deste digo de 10br.º deste anno de 672 a em o coro da Ermida de nossa Snrª da Graça (…) o vig.º do culto divino q acabou entregou ao vig.º do culto divino q de novo entra (…) onse cordoins das figuras da prosissão, huã serpente, e as fitas q leva nosso Pe hu Corpo do N. Pe e outro de S. Luis e outro da Rainha Stª mais hu corporal de rendas com goarda sanguinho e amito tudo em renda metido em hua boceta e tres andores dos Stos.

Portanto, esta festividade terá surgido como uma das primeiras manifestações públicas da Ordem Terceira em Ovar e rapidamente alcançou uma dimensão e configuração própria e identitária, como descrevem os Estatutos de 1672:
“A Procissão de quarta feira de cinza se deve fazer pela forma e ordem seguinte
A cruz da penitencia com duas tochas a ella e seguem-se as penitencias.
A cruz e cereaes da comunidade a que se seguem seis Anjos de gala.

ANDOR I.º
N. Sra da Conceição
Figuras
1. O Paraizo e a ella hum Anjo.
2. e 3. Adão e Eva, outro Anjo.
4. O Cherubim, outro Anjo.
5. e 6. As Cinzas, outro Anjo.
7. A contribuição, outro Anjo.
8. A confissão, outro Anjo.
9. A penitencia, outro Anjo.
Aqui governa hum Irmão Secretário.

ANDOR II.º
Nosso Padre S. Francisco despendo as galas; e a elle quatro tochas, em que pegão quatro Irmãos Zeladores.
Dous Anjos.
Governa outro Irmão Secretário

ANDOR III.º
Nosso Padre seguindo a Christo: a elle quatro tochas, em que pegão quatro Irmãos Zeladores.
Dous Anjos.
Governa outro Irmão Secretário.

ANDOR IV.º
Nosso Padre S. Francisco nas vizoens: a elle quatro tochas, em que pegão quatro Irmãos Zeladores.
Dous Anjos.
Governa outro Irmão Secretário.

ANDOR V.º
Nosso Padre dando a regra: a elle quatro tochas, em que pegão quatro Irmãos Zeladores.
Dous Anjos.
Governa outro Irmão Secretário.

ANDOR VI.º
Nosso Padre recebendo a confirmação: a elle quatro Irmãos Zeladores.
Dous Anjos.
Governa outro Irmão Secretário.

ANDOR VII.º
Nosso Padre abraçado com Christo: a elle quatro Lanternas, em que pegão quatro Irmãos Zeladores.
Dous Anjos.
Governa outro Irmão Secretário.
(continua)

Sofia Nunes Vechina
Licenciada em História da Arte, pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto. Mestranda em História da Arte Portuguesa, na Faculdade de Letras da Universidade do Porto. Investigadora e inventariante do património religioso do concelho de Ovar. Investigadora do CEPESE.
(Foto: Sofia Nunes Vechina)

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