Opinião

Sábado à Noite – Por Pedro Nuno

É sábado à noite. É o culminar do fim-de-semana. A discoteca promove uma noite temática qualquer. O DJ é convidado e vem de longe. Passa música electrónica e ‘house’. Está hospedado num hotel de quatro estrelas, juntamente com a namorada e dois amigos. O DJ residente começa e encerra a noite.

Nesse intervalo de tempo bebe pouco álcool, muita água e manda uma pastilha (metade numa hora e o resto na seguinte), mas está “tranquilo e sem stresse”. A malta mais jovem vai cedo: a promoção permite que o valor de entrada até determinada hora seja menor. Parte deles já se encontra meio fodido e não aguentará mais do que hora e meia – duas no máximo – dentro da discoteca. Um deles vomita à entrada e o porteiro “convida-o” a ir para casa. Meia-dúzia fica à porta: tinham entre 15 e 17 anos, e assim não dá.

Lá dentro, muitos dos rapazes e raparigas beijam-se entre si. Alguns até alternam entre eles. Duas das jovens – uma morena de olhos verdes e a outra de cabelo loiro pintado e de lábios carnudos – despertam a atenção por brincarem com a língua uma da outra, fora da boca, criando um pequeno fio de saliva que se vai desfazendo à medida que as bocas se afastam e os olhares brilhantes trocados entre ambas, acompanhados por sorrisos sagazes e astutos, surgem nos respectivos rostos.

Entretanto, o grosso da massa humana já chegou e circula pela pista. Há muita gente alterada, com misturas de bebidas que amanhã, e só amanhã, serão um problema. Um indivíduo encostado à parede procura estancar uma das narinas: a nota de 5 euros que usou para cheirar coca deve ter-lhe rebentado uma pequena veia. Da casa de banho aparecem os amigos, um deles a espirrar e o outro a simular que teve um ataque de sinusite. A diversão é genuína e o DJ convidado consegue magnetizar o povo. A diversão é pura.

Os excessos são evidentes e a ressaca de amanhã ainda mais evidente será. Mas não existe problema algum. Está tudo tranquilo. Os seguranças mostram-se aborrecidos e entediados, como se estivessem a controlar a fila da cantina de um lar de idosos, ou algo similar. O piso da pista cola-se aos sapatos, e cada vez torna-se mais pegajoso, assemelhando-se a uma trincheira da Primeira Grande Guerra. Encontrões aqui e além são uma realidade. Copos entornados e partidos são outra. Mas ninguém quer saber.

A diversão continua genuína e segue o seu rumo de forma imparável. O clima é de deboche. Desconhecidos conversam com desconhecidas. Desconhecidas conversam com desconhecidos. Um diálogo tantas vezes absurdo e ridículo que procura, apenas, abafar o que subconsciente pretende: uma quebra rápida do “gelo” para depressa atingir o patamar seguinte: de beijos ao sexo. Muitos refugiam-se no corredor próximo da zona mais desabitada da discoteca: ninguém pode saber que se “comem”.

E ninguém, de facto, precisa de saber que se “comem”. Tudo o resto fica para depois das 6 horas, ora no carro ora na casa de um deles. A larga percentagem não se consegue vir e adormece no primeiro quarto de hora. “Foda-se, não devia ter misturado tanta coisa ontem. Ainda para mais estou com a narina direita cheia de aftas”, desabafa enquanto ressaca.

Enfim, um povo divertido, genuíno e disfuncional, como gostamos.

21.04.2021
Pedro Nuno

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